Deixo a casa para trás e sigo a
leste, a esmo. A luz do Sol fere meus olhos foto fóbicos desprotegidos, como
crianças solitárias relegadas à própria sorte. Caminho sem velocidade, quase levitando,
sem ter aonde ir, não preciso de pressa para chegar. Ao longe vejo algumas
pessoas, outras passam a meu lado. Indiferentes, permaneço incólume a todos, quase
invisível, exceto pela matéria corporal que insiste em não me abandonar. Sou
alguém normal em uma caminhada sem rumo e embora todos tenham um destino,
ninguém sabe aonde quer chegar. Minha tez cinzenta, enevoada e gelada, contrasta
com os tons quentes da juventude, cores da vida. De onde vem a felicidade que
estampam em seus rostos? São felizes? Cada um com sua máscara predileta. Como
em um teatro grego de Thespis, as máscaras são postas para que pessoas na
plateia, que não podem nos ouvir, vejam-nos. O criador da fala consigo mesmo jamais
imaginaria que suas máscaras representariam monólogos dentro de diálogos.
Tampouco que o teatro da vida seria uma comédia à frente das máscaras e uma
tragédia por trás delas. Quando as retiram a realidade não é tão bela, é como um
quarto escuro, vazio e repleto de lágrimas esvaídas. Sem máscaras não há
maquiagem que os façam melhores, a edição da vida passa por filtro de cores e
humores, líquidos que determinam a saúde física e emocional, como um jogo de
cartas marcadas no qual sabemos os vencedores antes do fim.
Pelo caminho as pessoas destroem as engrenagens do relógio com tecnologia, invisível aos olhos, letal ao tempo, dissipando-se como areias dentro de uma ampulheta de um lado só. Os ladrões do tempo nos afastam de quem realmente somos, de forma que não precisamos ser nós mesmos, podemos ser qualquer um aos olhos dos outros. Entretanto quando olhamos para dentro de nossa alma, a verdade é única e cruel, como um corpo sem pele que lamuria nosso nome. Ao cair da noite é preciso enfrentar nossos fantasmas. Momento em que nos encontramos ou nos perdemos.
As palavras daqueles que cruzam
meu caminho chegam a meus ouvidos, tantas razões, que desconfio não existir no
mundo mais razões do que as que presencio. Cheios de si, inundam o ar com suas
verdades, vidas vazias e desejos egoístas. Presunçosos, tal qual a narrativa
desses fatos. Meus sentimentos permanecem guardados em uma caixa ao lado de meu
coração. Jamais serão encontrados por aqueles que buscam apenas a si mesmos,
minha face não tem cor. Em minha direção a felicidade colorida e estampada no
rosto de uma jovem vestida com trajes leves, vermelhos como sangue, rubros como
o coração. De onde vem seu contentamento? A seu lado, embora junto a ela, está
um jovem, tão longe que desconfio ser um fantasma de séculos passados, ele a
alimenta de felicidade? Ou rouba seu brilho para manter douradas as penas que
sustenta em seu olhar? Como ela pode sorrir vivendo nesse mundo, poderia a verdade
estar oculta como uma face da Lua?
Seu vestido não possui vincos,
ele desliza espontaneamente pelo passar das horas, como uma pluma passeia pelo
ar, sem destino, bailarinas sem gravidade ao som eterno de Strauss, seu único
propósito é ser uma pluma. Esse é o sentido da felicidade? Cabelos pretos
esvoaçam ao acaso, como um filme em câmera lenta, liberdade e certeza, esse é o
segredo da felicidade? Sigo seu sorriso em cada movimento de seus lábios e em
cada piscar de olhos, sorri como um arco íris que transcende à explicação ótica
da realidade e faz com que as cores respirem a brisa úmida posterior à
tempestade.
A solitude me veste de preto e
branco, como a luz absorvida por um buraco negro, de onde apenas a tristeza
escapa. Se a meu lado estivesse seria de cor? Qual máscara escolheria para me
acompanhar? Seria o arco íris ou o trovão de uma tarde carregada por
cumulonimbus? Meus olhos agora estão pesados, vejo tudo cinza a meu redor, para
onde os ventos a levaram? Onde está você agora?


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