sábado, 11 de maio de 2019

Capítulo I - A casa vazia


 Acordei no meio da madrugada, a ausência de luz era perceptível pelo fino fio que insistia em atravessar a janela. Nas paredes, amarelas como fotografias velhas, pendiam tensas e grossas cortinas, que se desvencilhavam da muralha de cimento com leves ondulações. A penumbra diminuía à medida em que o tempo avançava, implacável e inevitável, meu coração, em contrapartida, segue o oposto, o passar das horas traz frio e ocaso. A janela, de vidro inteiriço, transforma os ternos raios do Sol em formas desproporcionais. Acostumada com a transparência, a luz trava uma batalha com o visgo impregnado na estrutura, presentes do tempo.

Sento por um instante à beira da cama, busco alguma lembrança recente, nada encontro. Ao redor o silêncio fora quebrado pelas grossas gotas de chuva, que têm sua trajetória interrompida pelas janelas, lançam-se ao desconhecido como camicazes enfurecidos. Ao contrário do silêncio, o vazio permanece. Hospedado por toda a casa, como um moribundo em seu derradeiro momento. Como uma árvore no outono, enraizando-se por entre os espaços repletos de lembranças de outrora. Que agora não passam de recordações vazias, importantes apenas para aqueles que as presenciaram, e, que, ao fim destes, desvanecera-se como pó. Tendo como única testemunha o tempo, teimoso, incorrigível, impetuoso.

Ando pela casa em busca de entendimento. O que posso dizer? Apenas algumas caixas de papel velho, inúteis para sua função, abrigando o vazio que fora desprezado e mantido aqui, apenas estes, seriam capazes de me ouvir. Reféns da prisão do acaso, das decisões repentinas, do clamor mortal do ego e desejos humanos. Por onde piso tenho a vista inundada pela tempestade depositada na cerâmica do chão, que se espalha com a brisa, fugitiva da chuva, embrenha-se pelos vãos abertos da mais pura incompetência dos mantenedores de sonhos. O teto reflete cores indiferentes às minhas ambições cinzentas. Retrato da água que vence a força homérica da casa, aliada à luz do dia que transforma o vazio em um show pirotécnico de poeira e tristeza.

Um espelho sem vida reflete a minha face, preso por um metal enferrujado à parede, sua posição desproporcional à aritmética, sugere seu esforço em se desprender de tudo que lhe fora atribuído em sua criação. Flores negras com bordas cinzas emergem no centro de meu rosto e em toda moldura descuidada que sustenta o milagre da reflexão. Será que ele pode me dizer algo? Será que pode mensurar seus segredos? Apropriar-se de todo o brilho, pelos quais, olhos ávidos, buscavam ao seu cruzar com os dele? Seria sua tristeza maior quando a solidão lhe é companheira? O que sentiria com meu olhar acusador sob sua face?


As folhas espalhadas pelo quintal tentam me alcançar, são bloqueadas pelos vidros laterais da porta de entrada. Algumas dançam em espiral, indo para cima e para baixo, em uma canção muda de Strauss, outras persistem em me alcançar em movimentos aleatórios e violentos. O que teria eu feito a elas? Percebo a ira em suas veias rígidas e seu semblante maquiavélico, não me deixarão partir. A chuva fornece retaguarda e assegura a estratégia de luta mortal. As gotas caem compassadas, como notas musicais dentro de uma orquestra, vindas de arqueiros em formação de batalha, atirando suas flechas e desacelerando o ímpeto inimigo. A cavalaria de folhas golpeia o coração abatido pelas flechas do amor.

O dia amanheceu, mas o Sol esconde-se nas últimas nuvens negras, que se deslocam com suas tropas pelo céu nublado. As folhas de outono estendem-se por todo o caminho visível, como uma ferrovia em direção ao horizonte, transportando minhas lembranças, trazendo à solitude uma carga extra de saudade. Rebuscada pelos fenômenos da natureza, como obras clássicas do barroco. Onde estarias agora?

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