Deixo a casa para trás e sigo a
leste, a esmo. A luz do Sol fere meus olhos foto fóbicos desprotegidos, como
crianças solitárias relegadas à própria sorte. Caminho sem velocidade, quase levitando,
sem ter aonde ir, não preciso de pressa para chegar. Ao longe vejo algumas
pessoas, outras passam a meu lado. Indiferentes, permaneço incólume a todos, quase
invisível, exceto pela matéria corporal que insiste em não me abandonar. Sou
alguém normal em uma caminhada sem rumo e embora todos tenham um destino,
ninguém sabe aonde quer chegar. Minha tez cinzenta, enevoada e gelada, contrasta
com os tons quentes da juventude, cores da vida. De onde vem a felicidade que
estampam em seus rostos? São felizes? Cada um com sua máscara predileta. Como
em um teatro grego de Thespis, as máscaras são postas para que pessoas na
plateia, que não podem nos ouvir, vejam-nos. O criador da fala consigo mesmo jamais
imaginaria que suas máscaras representariam monólogos dentro de diálogos.
Tampouco que o teatro da vida seria uma comédia à frente das máscaras e uma
tragédia por trás delas. Quando as retiram a realidade não é tão bela, é como um
quarto escuro, vazio e repleto de lágrimas esvaídas. Sem máscaras não há
maquiagem que os façam melhores, a edição da vida passa por filtro de cores e
humores, líquidos que determinam a saúde física e emocional, como um jogo de
cartas marcadas no qual sabemos os vencedores antes do fim.
