terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Capítulo II – Sozinho, não por prazer


Deixo a casa para trás e sigo a leste, a esmo. A luz do Sol fere meus olhos foto fóbicos desprotegidos, como crianças solitárias relegadas à própria sorte. Caminho sem velocidade, quase levitando, sem ter aonde ir, não preciso de pressa para chegar. Ao longe vejo algumas pessoas, outras passam a meu lado. Indiferentes, permaneço incólume a todos, quase invisível, exceto pela matéria corporal que insiste em não me abandonar. Sou alguém normal em uma caminhada sem rumo e embora todos tenham um destino, ninguém sabe aonde quer chegar. Minha tez cinzenta, enevoada e gelada, contrasta com os tons quentes da juventude, cores da vida. De onde vem a felicidade que estampam em seus rostos? São felizes? Cada um com sua máscara predileta. Como em um teatro grego de Thespis, as máscaras são postas para que pessoas na plateia, que não podem nos ouvir, vejam-nos. O criador da fala consigo mesmo jamais imaginaria que suas máscaras representariam monólogos dentro de diálogos. Tampouco que o teatro da vida seria uma comédia à frente das máscaras e uma tragédia por trás delas. Quando as retiram a realidade não é tão bela, é como um quarto escuro, vazio e repleto de lágrimas esvaídas. Sem máscaras não há maquiagem que os façam melhores, a edição da vida passa por filtro de cores e humores, líquidos que determinam a saúde física e emocional, como um jogo de cartas marcadas no qual sabemos os vencedores antes do fim.

sábado, 11 de maio de 2019

Capítulo I - A casa vazia


 Acordei no meio da madrugada, a ausência de luz era perceptível pelo fino fio que insistia em atravessar a janela. Nas paredes, amarelas como fotografias velhas, pendiam tensas e grossas cortinas, que se desvencilhavam da muralha de cimento com leves ondulações. A penumbra diminuía à medida em que o tempo avançava, implacável e inevitável, meu coração, em contrapartida, segue o oposto, o passar das horas traz frio e ocaso. A janela, de vidro inteiriço, transforma os ternos raios do Sol em formas desproporcionais. Acostumada com a transparência, a luz trava uma batalha com o visgo impregnado na estrutura, presentes do tempo.